Demasiado humano

“O sonho de paz e vida feliz, para não poucos, é poder retirar-se para uma ilha paradisíaca, distante de tudo e afastada do maior número possível de humanos e humanas, isto é, isolar-se: ilha, condomínio fechado, alto da montanha, praia privativa, local inacessível; no máximo, horrorizar-se ou alegrar-se virtualmente com o que acontece com a humanidade, mas sem chegar muito perto.”

O texto acima é parte de uma crônica de Mario Sergio Cortella para a Folha de São Paulo em que ele parte de uma “máxima” de Karl Marx: “Nada do que é humano me é estranho”. E em cima disso discorre sobre como continuamos nos surpreendendo negativamente com esse ser chamado humano.

Baseado nisso eu comecei a refletir sobre a humanidade. E de fato é incrível como continuamos nos surpreendendo negativamente com atitudes humanas tão desprezíveis, cruéis e sem explicação que muitas vezes temos, de fato, vontade de nos refugiar e apenas observar o mundo através de uma tela digital – se é que muitas vezes já não fazemos isso.

Mas será que só nos surpreendemos negativamente? Não é preciso ir muito longe para encontrar uma infinidade de ações positivas, por ONG’s, igrejas, instituições religiosas e uma centena de anônimos com o desejo de apenas ajudar ao próximo. Seja com roupas, alimento, uns trocados, um abraço, um sorriso, atenção e um par de ouvidos.

Mas por que não fazemos isso? Sem dúvida já passou pela sua, e pela minha cabeça, um batalhão de desculpas para justificar por que preferimos nos manter longe, apenas como observadores dos fatos a nossa volta. É bem provável que neste momento já estamos acusando uma dezena de empresários gananciosos, pais despreparados, a falência familiar e principalmente os políticos corruptos, gananciosos, ladrões, covardes, sem-vergonhas e eleitos por todos nós.

As desculpas só nos afastam de nós mesmos pelo simples fato que nos afastam do outro. Em toda história da humanidade nós sempre vivemos em comunidade, ajudando uns aos outros, convivendo uns com os outros. Seja na época como nômades, seja quando estabelecemos território e em tantas outras épocas. O isolamento não é característica humana. A socialização, essa sim, é característica demasiada humana.

Na criação da humanidade, descrita na Bíblia, é clara a característica humana quando Deus olha para a criação e diz: “Não é bom que o homem esteja só”. Fomos criados para o convívio, a troca, o contato pele com pele. Cada vez que optamos pelo isolamento deixamos de usufruir de uma das características mais intrínsecas desse ser chamado humano, e assim evitamos não apenas os outros mas evitamos o nosso próprio desenvolvimento.

Não consigo me conformar com o discurso do isolamento como sonho de paz e felicidade. Não consigo me desvincilhar dos inúmeros relacionamentos que crio dia-a-dia, com os olhares que cruzam com os meus na rua e expressam uma infinidade de sentimentos, com o abraço anônimo e caloroso, com o sorriso nervoso da saudade, com a lagrima que cai, com a indignação que une uma multidão e principalmente com o amor expresso no contato.

Sinceramente, não consigo conviver com a ideia do isolamento, nem mesmo para meditar longamente na palavra de Deus. Afinal, procuro Deus além das escrituras. Busco a Deus, sobretudo, nas pessoas. Não sei ser diferente disso, simplesmente por que me sinto demasiado humano.

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