Desprendimento literário

desprendimentoliterario-225x300Publicado originalmente no Meia Palavra

Assim como a maioria dos leitores, eu carrego certos trejeitos, cacoetes e manias que me acompanham durante minhas horas de leitura. Não reservo hora certa, procuro sempre andar com um livro por perto para me socorrer em filas, salas de espera e durante o trajeto em ônibus e metrôs. Por falar em transporte público, ainda vou desenvolver um adesivo para colar ao lado dos bancos reservados e alegar que existe uma nova lei que reserva assentos para leitores. Além dos meios que se locomovem, eu também leio em casa. Geralmente sentado em uma poltrona, sofá, cama e até mesmo debruçado sobre uma mesa devorando palavras acompanhado de cafeína.

Alguns desses trejeitos e ideias poderiam ser explorados com maior profundidade, gerando até interessantes discussões. Mas uma atitude minha nos últimos tempos vem me chamando atenção. Não sei se inspirado pelo espírito natalino de solidariedade ou por um desprendimento estranho de bens materiais, mas o fato é que últimamente eu ando emprestando meus livros com certa facilidade.

Tudo começou com a troca de livros. Recentemente escrevi sobre a prática do escambo literário, o que me rendeu ótimas trocas e obras fantásticas que vieram parar na minha mão. Mas para adquirí-las eu precisei me desprender de alguns livros, como os dois volumes de Mushashi (Eiji Yoshikawa), a coleção O Imperador (Conn Iggulden), três volumes de Harry Potter em espanhol, alguns livros da coleção do Sharpe (Bernard Cornwell), Sobre Histórias de Fadas (Tolkien), além de alguns pockets em inglês.

Obviamente que esses livros foram trocados, e em seus lugares eu adquiri outros de autores que ganharam destaque na minha estante como Milan Kundera, Amós Oz, Ernest Hemingway, Vladimir Nabokov, Jack Kerouac e Julio Cortázar.

Mas a iniciação na prática do escambo levou-me uma nova mania, trejeito ou cacoete um tanto quanto estranho entre os amantes de livros. De repente, como que por obra do destino, espírito natalino ou simplesmente motivado por uma força maior eu comecei a emprestar meus livros.

Talvez você ache isso algo banal, afinal todo leitor empresta seus livros para outros leitores próximos desde que esses outros não risquem, rasgem, dobrem, escrevam, razurem, manchem os objetos emprestados e que devolvam os mesmos em um prazo máximo de 7 dias – sendo que se o prazo for ultrapassado a pessoa de posse do livro que não lhe é de direito receberá telefonemas ameaçadores até que o mesmo volte, intacto, as mãos do dono.

O fato é que eu não estipulo prazos para a volta dos meus livros emprestados, nem ao menos reclamo se os mesmos voltarem amassados ou razurados. Em alguns casos faço questão de esquecer que estão em poder de outra pessoa, e quando tentam me lembrar eu apenas digo para que fiquem ou repassem para uma terceira pessoa.

Em outros casos, quando eu percebo que há um interesse pela leitura a minha vontade de incentivar é imediata. Nos últimos meses, incentivei a filha da minha supervisora – de apenas 15 anos – emprestando a coleção completa de Percy Jackson, Eragon e os livros Tequila Vermelha e Pequeno Irmão. Engraçado como fico alegre quando ouço que ela está devorando-os.

Obvio que essa mania de emprestar sem me preocupar com o retorno fez alguns livros desaparecerem, como A menina que roubava livros (Markus Zusak), Uma breve história do mundo (H. G. Wells), Noah Foge de casa (John Boyne) e Operação Valquiria (Philipp Von Boeselager). E certamente outros que não me recordo ou que eu exercitei a prática do esquecimento voluntário, deixando que a obra se perca por ai.

Esse desprendimento não é aplicado a todos os meus livros. Existem alguns exemplares na minha estante que são protegidos por sistemas de segurança equipados com sensores de presença e infravermelhos. E que se for detectado a presença de um intruso, o mesmo receberá uma descarga elétrica capaz de torrar alguns neurônios.

Mas esse zelo aplica-se somente a algumas poucas coleções que tenho certo apreço. Na maioria dos meus livros a prática do desprendimento, caridade ou propagação da leitura é mais forte. Tanto que eu dificilmente coloco meu nome neles, gosto da ideia de que eles não tem dono e sim são livres para correr de mão em mão, que suas páginas sejam percorridas por diversos olhos e que suas ideias transformem pessoas que mudem o mundo de alguma forma, assim como disse certa vez Mario Quintana:

Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.

Sabe, acho que tem um pouco de Mario Quintana nesse meu desprendimento literário.

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10 comentários sobre “Desprendimento literário

  1. Ironia do texto: “A menina que roubava livros” desaparecer.

    Desde que comecei a comprar livros adoidadamente comecei a exercer (e muito) meu desprendimento também. Quase todos os que comento lá no meu blog (cujas resenhas são eventualmente lidas por meus amigos) são emprestados quase em seguida. “Ser feliz”, em especial, tá fazendo a festa aqui no trabalho.

    1. A menina que roubava livros “sumiu” propositalmente, deixei com uma amiga apaixonado por segunda guerra na esperança q ela perca a preguiça e leia o livro.

      Bom saber desse seu lado desprendido, vou parar de pedir livros para a Izze e pedir pra ti…rss

      1. Huahahaha, pode ser. Só que pela distância, acho que vou preferir dar uma trocada nos livros. =P Pode dar uma olhada no Skoob lá.

        Uma coisa: quando você fala em trocar livros, você fala em trocar empréstimos entre amigos? Ou em trocar, trocar mesmo, e eventualmente nunca mais ver aqueles livros? Eu normalmente troco empréstimos: costumo gostar MUITO dos poucos livros que tenho e gosto de emprestá-los a pessoas diversas (que, nem sempre, podem me emprestar coisas que eu queira ler). Nunca troquei do vera mesmo.

        Ah, e não são todos os livros que são alvo do desprendimento literário: os favoritos (vide Desventuras em série) eu acompanho um pouco o tempo de empréstimo, até porque são fininhos. Os que ainda não li costumam não se incluir neles — apesar de eu ter quase me decidido por emprestar Ulysses a um amigo que prometeu lê-lo nas férias.

      2. No caso da minha coleção dos Desventuras em Série, Os contos dos irmãos Grimm, O livro perigoso para garotos e alguns outros estão incluídos na linha de proteção máxima (rsss)

        Eu faço os dois tipos de Troca. Tanto os “para sempre” quanto os empréstimos. Esse último é mais interessante por que sempre abre um leque absurdo de possibilidades.

        Vou olhar sua estante do skoob, olhe a minha também, e iniciamos esse tipo de troca…

  2. Nunca entendi quem não gostava de emprestar livros. Eu sempre o fiz com o maior prazer e na certeza de que estaria incentivando a leitura. Empresto sem problemas e também pego emprestado. Afinal, se eu já li o livro qual é o problema? Pra que ficar enfeitando a prateleira se alguém pode tirar melhor proveito dele? Uma amiga minha já saiu daqui com seis livros, enquanto outra está há 3 anos com um livro meu ( mudou pra SP, e o livro foi junto). Mas da mesma forma eu já esqueci o livro de uma amiga no shopping, que eu, obviamente comprei um pra substituir. Livros vão e voltam, passam de mão em mão, o que realmente importa é que sejam lidos, o máximo possível.

    1. Lembra daqueles desenhos animados que uma bola de beisebol é arremessada de um lado e retorna do outro lado com diversos selos do mundo todo, fazendo alusão a volta ao mundo? Eu gostaria de que alguns dos meus livros viajassem o mundo e retornassem cheio de rasuras, rabiscos, dedicatórias, declaração de amor, anotações, grifos, rasgos, selos, assinaturas e marcas das diversas partes do mundo.

  3. Oi Roberto!
    Um amigo indicou seu blog e fiquei encantada ! Eu tenho um projeto pessoal chamado “Conhecimento Circulante” onde eu dôo livros para quem gosta de ler.
    Tudo começou quando minha estante estava cheia demais e percebi que os livros deveriam circular o máximo possível! Descobri que tenho mais prazer em ver as pessoas lendo do que ver minha estante cheia !
    O projeto funciona da seguinte forma: eu passo uma relação de livros a serem doados para um grupo e quem pedir primeiro leva ! A única condição imposta é: quem receber o livro, deverá doar um outro livro no lugar. Não importa se é o mesmo livro ou diferente ou para quem será doado.
    O projeto anda ‘aquecido’ e ultimamente recebo vários livros para doação… são pessoas que tambem tem estantes cheias e não sabem o que fazer com os livros e me enviam para doação. Depois, eu mando um ‘relatoriozinho’ dizendo quem recebeu cada título.
    Quem quiser fazer parte do grupo, me envie um e-mail. Será um prazer expandir os contatos!
    Um abraço

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