As esganadas, de Jô Soares

AS_ESGANADASDuas horas de espera na fila. Eu acompanhava minha noiva, agora esposa, e uma amiga na empreitada de conseguir um autógrafo de Jô Soares no seu novo livro. Fora o calor, tínhamos como acompanhante alguns pastéis de nata, ou de belém, para adoçar a espera. O último doce foi oferecido a Andréa Ascensão, que recusou alegando uma indigestão enquanto se deliciava com as páginas da obra.

Somente alguns dias depois, ao ler algumas resenhas, que eu notei que a culinária portuguesa fazia parte da história e não de maneira simplesmente ilustrativa, mas como ingrediente fundamental da trama intitulada As esganadas, publicada pela Companhia das Letras. Nada que me fizesse engasgar com a lembrança dos pastéis de nata, na verdade o toque gastronômico na trama deu-me um apetite extra.

Curiosamente era a primeira vez que tive gula por um livro de Jô Soares, apesar de apreciar o trabalho dele como humorista e entrevistador, sempre duvidei da sua capacidade como escritor, principalmente em obras policiais. Não que lhe falte habilidade, mas o uso do humor combinado a esse estilo soa a mim enfadonho e desnecessário – e sinceramente, não consigo pensar em um texto escrito por Jô sem o uso de humor.

Por causa dessa característica é inegável a leveza na leitura, que anuncia seu objetivo principal de entreter o leitor. Fato reforçado pela inversão da narrativa ao revelar logo nas primeiras páginas o assassino e suas razões – deixando de lado o jogo de detetive típico de livros policiais – e reforçando que o foco está na ação do assassino, nas vítimas e a equipe de investigação do caso.

Sendo assim, é inevitável não rir das peripécias do criminoso, que caça suas presas aproveitando-se do pecado da gula, cometido por todas, e extermina-as como se preparasse pratos portugueses degustados pela imprensa e público. Isso sem falar da equipe de investigação formada por um delegado, e seu ajudante, uma jornalista e um ex-policial português, dono de uma confeitaria no Rio de Janeiro. Este último entra no caso exatamente pela sua experiência criminal e culinária, mas se torna ponto chave ao proporcionar momentos hilários devido às confusões causadas pelo uso do vocabulário falado em Portugal e tão estranho aos brasileiros – fato bastante explorado pelo autor.

Apesar do humor, fiquei com a sensação de que Jô Soares errou o tom da narrativa ao retratar as mortes. Relatadas de forma cruel e brutal, parecem anunciar um olhar mais profundo e aterrorizante dos eventos, talvez até com pitadas de humor negro. Porém, elas se perdem dentro da narrativa leve e engraçada, parecendo que esses atos vis estão fora de contexto ou são inapropriadas para o estilo adotado.

Tanto que tais relatos me causaram fome ao invés de nojo, o que me fez voltar a comprar pastéis de nata para acompanhar a narrativa. Com ou sem acompanhamentos, os ingredientes dessa história que se passa no Rio de Janeiro dos anos 30, mostrando alguns poucos aspectos da ditadura de Getúlio Vargas, apresentam claramente ao que propõe o livro de Jô Soares: diversão e puro entretenimento – e nada melhor que alguns doces para acompanhar essa deliciosa obra.

As esganadas
Autor: Jô Soares
Editora: Companhia das Letras
264 páginas
Preço Sugerido: R$ 36,00

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