Escambo Literário

Texto publicado originalmente no Meia Palavra.

Nunca passou pela minha cabeça trocar meus livros. Até tenho certo desapego, uma vez que empresto muitos deles e esqueço qual seu paradeiro. Óbvio que isso não se aplica a minha coleção de infantis, mas isso é assunto para outro momento. A ideia de trocar meus livros surgiu a partir do momento que recebi uma proposta inusitada.

“Quer trocar o seu Musashi por algum livro da minha estante?”

A pergunta causa no primeiro momento estranheza, e até certo grau de revolta: “Como assim alguém quer o meu Musashi?”. Mas analisando de maneira fria e racional, e lembrando de um raciocínio da Anica sobre a quantidade de livros que ainda poderei ler até o fim da minha vida, reler um livro de mil páginas soa como algo irracional. Desta forma aceitei temerosamente a troca.

Esse simples ato me fez olhar para minha estante de forma diferente. Não que todos os livros lá presentes pudessem participar de uma transação literária. Mas muitos daqueles títulos já não despertavam a mesma paixão de outros tempos, o que me motivou fazer uma lista de livros para troca. E, consequentemente, uma lista obras desejadas.

Não vou me ater aqui na lista de títulos que deixaram a minha estante, em parte pelo saudosismo. Prefiro olhar para os que chegaram, com o fervor da paixão em começo de namoro.

Dentre os livros que chegaram posso citar alguns que já procurava há algum tempo, como “A caixa preta” de Amós Óz, “O velho e o mar” de Hemingway, “On the Road” de Jack Kerouac, “O médico e o monstro” de Robert Loius Stevenson, “Misto quente” de Charles Bukowski, “Eu Mato” de Giorgio Faletti, “Luka e o fogo da vida” de Salman Rushdie, entre outros.

Uma das curiosidades da troca de livros, que eu dificilmente teria pensado antes de entrar nessa empreitada, foi em adquirir algumas coleções. Porém, para a minha surpresa, já completei os cinco livros de Douglas Adams e a trilogia de Stieg Larsson.

Agora estou em busca de completar a coleção dos Plenos Pecados, até o momento já adquiri “A casa dos budas ditosos” (Luxúria) de João Ubaldo Ribeiro, “Xadrez, truco e outras guerras” (Ira) de José Roberto Torero, “O clube dos anjos” (Gula) de Luis Fernando Veríssimo, “Vôo da rainha” (Soberba) de Tomás Eloy Martínez e “Mau secreto” (Inveja) de Zuenir Ventura. Sendo assim, só me faltam os pecados Preguiça e Soberba, se alguém quiser propor alguma troca comigo, ou me presentear, serei muito grato.

Além das coleções, alguns livros chamaram atenção especial quando chegaram. “Sangue frio” de Truman Capote chegou depois de uma festa das traças, pode parecer maluquice, mas o livro me chamou atenção exatamente pelos maus tratos – parece sadomasoquismo, mas qualquer dia eu falo sobre esse meu fetiche.

Outros já chegaram com excesso de cuidados, e com certo ar de raridade. Foi o caso de “Insustentável leveza do ser” de Milan Kundera e “Lolita” de Vladirmir Nabokov. Ambos em capa dura, e impecavelmente conservados, quase novos.

Vale destacar ainda a chegada de dois livros que há muito tempo eu procurava e tinha dificuldade de achar, ou por esgotamento da editora ou por conta do alto preço. Entram nessa lista “A conspiração de papel” de David Liss e “O clube Dumas” de Arturo Pérez-Reverte.

A minha experiência com o escambo literário tem sido inusitada e especialmente surpreendente. Isso por que a troca de livros proporciona o compartilhamento da experiência literária, ainda mais por saber que recebi obras de leitores do Rio de Janeiro, São Paulo, Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Brasília, Rio Grande do Sul, Minas e Paraná.

Sem contar algumas histórias adicionais em cada livro expressas por grifos que me fazem refletir o que fato chamou atenção do antigo leitor, e algumas dedicatórias como a declaração de amor da quase-ex-mulher do antigo proprietário do livro “Valis” de Philip K. Dick.

Apesar das minhas dúvidas iniciais, a prática do escambo literário tem se mostrado uma ótima oportunidade de descobrir novas formas de compartilhar livros, e histórias que podem ir além das páginas da própria obra.

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15 comentários sobre “Escambo Literário

  1. Sei que preciso mudar isso, mas dificilmente me desfaço de livros, até dos que não gosto… fico pensando… se ele livro não mereceu meu respeito, não será desrespeitoso “empurrá-lo” para outra pessoa? E se gosto, mesmo que não vá reler, fico pensando nas notas que tomei, nos trechos que posso querer revisitar (e faço isso com frequência) e para isso ele pode ficar ali por perto… Mesquinho!? may be… tenho trabalhado o pensamento para mudar isso.

    1. Não é mesquinho, acredito que a relação entre livros e leitores seja muito particular… mas a troca de livros é uma ótima forma de praticar o desapego, como disse o JLM, e você ainda ganha de “brinde” um livro de sua escolha. Desafio-te a praticar! xD

  2. uma das técnicas mentais pra me convencer a trocar até os livros queridinhos é mensurar qdo vou ler o dito livro novamente. como a maioria dos q já li ñ faz parte das minhas prioridades d releitura, então parto para o 2º raciocínio matador: como o livro vai envelhecer, amarelar, pegar pó, ácaros & cia, então me desfazendo dele eqto ainda tá bom me deixa livre pra qdo der vontade d ler ele novamente comprar 1 novinho em folha, talvez até numa edição/tradução melhor ou + recente.

  3. Praticar o desapego é uma das atitudes que podem nos dar muito prazer, especialmente em se tratando de livros. Até mesmo dos de William Faulkner, cujos livros, segundo ele mesmo, têm de ser lidos umas 4 vezes pra serem entendidos (!). Vamos defenestrar nossos livros através do SKOOB, TrocandoLivros, LivraLivro, etc. – abrir janelas para outros leitores. Ray Bradbury disse, faz tempo, que pior do que queimar livros é não lê-los. Eu emendo: ou não permitir que outras pessoas leiam os livros de nossas estantes. “Bem-vindo ao clube” dos trocadores desapegados de livros.

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