Precisamos falar sobre o Kevin (Lionel Shriver)

Capa_Kevin_filme-web-208x300Iniciei o meu contato com Precisamos falar sobre o Kevin através do filme para então seguir para o livro. Inverti a ordem mais por ansiedade do que por qualquer ato consciente, e não me arrependi. A imagem de Tilda Swinton no papel de Eva Katchadourian, mãe de Kevin, é assustadora. Magérrima, debilitada pelas dores e cicatrizes do tempo. Uma figura quase fantasmagórica que insiste em permanecer assombrando os vizinhos de Gladstone, com um único motivo aparente de permanecer perto do filho encarcerado. Uma pergunta ficou incomodando minha mente ao final do filme: seria isso amor?

Após o filme foi inevitável sair de encontro às páginas do livro de Lionel Shriver, publicado pela editora Intrínseca. A obviedade de que todos os segredos já tivessem sido revelados pela película caiu por terra assim que a estrutura do livro se apresentou. As cartas de Eva Katchadourian ao seu (ex) marido soaram-me a princípio estranhas, e conforme as páginas foram correndo pelos meus dedos percebi que os relatos iam além de simples explicações ou lamentações pelos fatos ocorridos, mas pela exposição crua e nua da mulher com aspecto quase cadavérico do filme.

Assim, com a inversão da ordem natural das coisas – do filme para o livro – Eva e Kevin ganham faces e vozes no decorrer da leitura. Os motivos para o aspecto doentio são escancarados, como em uma tentativa de justificar sua permanência na cidade que rejeitara no início e que agora acolhia como lar:

Você levaria um susto. Entre outras coisas por eu ter escolhido permanecer em Gladstone, depois de fazer aquele escândalo todo quando saímos de Manhattan. Mas achei que deveria ficar perto do Kevin. Além disso, por mais que eu almeje o anonimato, não quero que os vizinhos se esqueçam de quem sou; quer dizer, querer, eu quero, mas o esquecimento não está disponível. E este é o único lugar do mundo onde as ramificações da minha vida podem ser inteiramente sentidas, e, para mim, no momento, importa mais ser compreendida que amada.

A compreensão buscada por Eva é o principal fator que a leva a escrever as cartas. Como em uma terapia, ela expõe todas as vísceras de pensamentos, sentimentos e fatos que ligam o passado ao presente. De uma profissional brilhante, que mora em Nova York e viaja o mundo para compor o guia de viagem A Wing & A Prayer, a uma mulher casada com um americano padrão, mãe de dois filhos e residente em uma pequena cidade.

Porém não são os fatos que importam, mas todas as cicatrizes de Eva que precisam ser escancaradas a cada linha de maneira nua e crua. A exposição é tamanha que temos a sensação exata de lidar com uma mulher real, e não uma ficção criada por Lionel.

O lado mais doloroso fica por conta da relação entre Eva e Kevin. A obviedade do conflito não tem uma causa definida, por mais que se procure nas palavras desesperadas e sinceras da mãe. A rejeição pela amamentação, os berros de ódio em forma de choro, as atitudes provocativas, o lado mais cruel exposto, sem máscaras, sempre a Eva podem ter explicações diversas ao final da narrativa, todas inconclusivas.

Terminamos a leitura sem conclusões psicológicas, patológicas, comportamentais ou genéticas. O que acumulamos durante o livro é uma infinidade de sensações e questionamentos que vão muito além dos culpados em uma história tão dolorosa, na verdade a busca é sobre o amor. Ao escancarar as vísceras de uma mãe mutilada por um filho assassino – expondo a relação onde o amor é dito mais vivo e puro – Lionel Shriver questiona nossa própria capacidade de perdoar e amar.

A resposta não é simples, muito menos óbvia. A busca pela compreensão pode revelar uma verdade perturbadora e chocante, como a encontrada por Eva Katchadourian:

“(…) nem que seja por desespero, ou até por preguiça, eu amo meu filho.”

Resta saber se nós estamos preparados para tais verdades.

Precisamos falar sobre o Kevin
Autora: Lionel Shriver
Tradução: Vera Ribeiro
464 páginas
Preço Sugerido: R$ 49,90

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