Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós

vermelhoamargoVermelho Amargo é um daqueles livros em que a prosa e a poesia se misturam de maneira tão íntima que é impossível separá-las. Por um lado presenciamos um texto escrito em prosa, de caráter biográfico sobre a infância do escritor. Do outro encontramos um texto magnífico, com um jogo de palavras muito bem traçado e um passeio entre o real a fantasia que dão o tom poético a obra de Bartolomeu.

A história é um passeio poético pela infância do escritor. O vazio deixado pela mãe, o alcoolismo do pai e a indiferença da madrasta dão o tom do texto. Os irmãos eram vistos pelo narrador com olhos fantasiosos: “Minha irmã maior gostava de agulhas. Meu primeiro irmão mastigava vidro”.

Os olhos do menino passeiam entre o real e a fantasia de tal forma que confundem o leitor que procura separá-los. Ambas fazem parte do mesmo jogo de palavras, da mesma poesia e da mesma fantasia que brinca de trocar de lugar com a realidade, explícito nas palavras do narrador: “Meu real é mais absurdo que minha fantasia”.

A realidade absurda com o pai e a madrasta era um contraste na visão da mãe. O amargo da realidade ganha novas cores quando o narrador fala da imagem materna. Os beijos para curar a dor, o quebra cabeça de retalhos costurados, o regador para dar de beber as plantas. “A mãe fazia a fantasia virar realidade”.

O confronto entre a mãe e a madrasta fica explicito no corte do tomate. A madrasta retalha o tomate em fatias finas, quase transparentes, sem sabor e que era engolida de uma só vez. A mãe fatia o tomate em cruz, que o transfigura em “pequenas embarcações” e os “barqueiros eram as sementes”. Vermelho vivo e saboreado:

Pousado sobre a língua, o pequeno barco suscitava um gosto de palavra por dizer-se. Há, sim, outras palavras mais doces que o açúcar.

A brincadeira poética de palavras entre o imaginário e a realidade dá o tom genial a obra de Bartolomeu Campos de Queirós. A genialidade é ressaltada por Henrique Lisboa ao afirmar que o escritor descobriu “o segredo da simplicidade”, que fica explícito em cada linha de sua fantástica prosa poética e faz deste um dos livros mais fantásticos do escritor.

Vermelho Amargo
Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Editora: Cosac Naify
Páginas: 72
Preço sugerido: R$ 39,00

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