Relatos da Manifestação

– Ontem na manifestação tinha um Senhor, não lembro muito bem do rosto dele, só lembro que ele segurava um cartaz com os dizeres “As religiões não me representam” de um lado e “Pois sou a própria representação do amor” do outro.

– Tinha mesmo um senhor com um cartaz com esses dizeres. Mas não consigo me lembrar do rosto dele, lembro que resplandecia de alguma forma e ele caminhava sempre com um sorriso no rosto.

– Eu me lembro dele sim, o cara tinha umas ideias meio loucas. Dizia ser a própria representação do amor. Como assim uma pessoa representa o amor?

– Lembro que em um determinado momento da manifestação ele subiu no canteiro central da Av. Paulista, em um ponto mais alto e começou a falar para um pequeno grupo.

– A principio achávamos que era mais um louco gritando no meio da Paulista, só que não. O cara começou a discursar calmamente, somente aqueles que estavam próximos conseguiam ouvi-lo.

– O Senhor era muito doido. Você acredita que ele subiu no meio do canteiro central da Paulista e começou a discursar?

– No começo eram poucos que o ouviam, e aos poucos a multidão foi ficando em silêncio.

– Cara, você não vai acreditar. Aquele Senhor fez toda a multidão de manifestantes da Paulista ficar em silêncio para ouvi-lo.

– Difícil explicar por que nos calamos. Aquela voz, aquelas ideias ao mesmo tempo inclusivas e revolucionárias. Ele explodia de amor, sabe? E nos contagiou com aquele espírito.

– O cara falava sem microfone. Tu tens noção da galera que estava sentada na Paulista ouvindo o cara falar, e a voz dele chegava do MASP até a Av. Brigadeiro? É fisicamente impossível, que potência.

– Lembro-me de um estudo científico que dizia ser impossível Jesus ter falado a uma multidão na famosa pregação do Monte. Quero ver a física explicar como alguém falou do MASP e alguém ouviu na Av. Brigadeiro.

– Ah, depois de alguns minutos ouvindo-o estávamos nos abraçando. Negros, pardos, homos, heteros, índios, jovens, velhos. Todos juntos, era como se não houvesse diferença alguma.

– Não me lembro do nome dele. Lembro que todos o chamávamos de Mestre.

– Meu! O cara falava umas paradas absurdas. Do tipo “se te baterem dê a outra face”, “não devemos excluir ninguém, mas acolher a todos”, “ame os diferentes”, “ouça antes de falar”.

– O mestre tinha umas ideias maneiras, ficou marcado sabe?

– Complicado falar dele. Desculpa, não posso evitar as lágrimas.

– Foi demais. E pensar que tudo começou com um cara com um cartaz dizendo que ele é o amor.

– O que eu aprendi ontem na manifestação com o Mestre? Difícil dizer. Acho que aprendi o que é o amor.

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