Perdi-me entre parágrafos

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Publicado originalmente na coluna “Leitura Marginal” do extinto Meia Palavra.

Citei os sintomas pausadamente, sem pressa. Ando desligado e perco-me com frequência anormal para a minha idade. A família chegou a cogitar que eu andasse com um mapa da cidade, que eu usasse um chip localizador ou então um tratamento de choque. Ficou-se com a terapia. Médico especializado em comportamento confuso e perda temporária da memória recente. Após algumas consultas e o sumiço de dígitos na minha conta bancária a sentença fora expedita: “O problema está nos livros, você precisa parar de lê-los”.

Perder-se durante a leitura é uma metáfora empregada por muitos leitores e é comumente usada para ilustrar o mergulho no universo de um livro. Entrar no ambiente dos personagens, sentir suas dores e angústias, alegrar-se com o improvável, rir de piadas infames, sentir saudades dos personagens e a vontade de viajar a locais que só existem na ficção.

O problema reside na metáfora trazida à vida real. O sentido do verbo “perder” deixa de lado os contorno líricos e ganha traços esquizofrênicos. Não que eu esteja louco, ou sofrendo de alguma falta de memória. Meu problema é geográfico. Leio em movimento, sempre a bordo de algum transporte público. O intuito é ocupar o tempo perdido no meio do trânsito paulista para algo prazeroso.

É comum encontrar outros leitores espalhados com seus livros na mão disputando espaço em ônibus, metrô e trens. Todos com o intuito de fazer valer as palavras de Zeca Camargo: “Trânsito é lugar de leitura”. Seja de livros da moda como a série Crepúsculo, 50 Shades, pocket books, a Bíblia e até mesmo os clássicos, todos têm seu lugar nas mãos e olhos nervosos. Ocupa-se o espaço e o tempo.

Só que no meu caso esse hábito ganhou proporções médicas. O ato de perder-se deixou de ser uma linda metáfora para transformar-se em um problema sério. O mergulho na leitura foi de tamanha profundidade que passei a esquecer que estava em movimento, e quando acordava do transe achava-me perdido em algum ponto desconhecido da cidade. Quando acontece no trem ou metrô não tenho tantos atrasos, é mais o tempo de verificar o nome da estação e retornar até o local correto. A mesma sorte não tenho com ônibus, geralmente acordo do transe da leitura em locais estranhos.

Antes eu despertasse em algum local literário, pelo menos eu teria um mapa na mão para voltar à realidade. Poderia descer do ônibus na Madri de Zafón, e adentrar ao mistério do cemitério dos livros esquecidos. Ou então desembarcar no Agreste baiano e ouvir as fofocas de Elisa e Perpétua sobre Tieta. Quem sabe aparecer no Rio de Janeiro antigo e correr o risco de esganar-me com algum doce português. São tantas possibilidades como a China de Chan Koonchung, a Espanha de Pérez-Reverte, Portugal de Catherine Clément, o Japão de Inio Asano, a França de Érico Veríssimo, a Dublin de Donleavy ou a África de Mia Couto.

Infelizmente eu não acordo em nenhum destes lugares, estou geralmente em algum ponto estranho de São Paulo. O problema reside no telefone seguinte, para a família, explicando o meu atraso: “Perdi-me entre parágrafos”. A sentença do médico foi o mesmo diagnóstico familiar, o que não engoli. Mas para não desagradar a todos, tomei como medida cautelar a opção de sair mais cedo, já prevendo o atraso literário. Afinal, “perder-se também é caminho”.

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5 comentários sobre “Perdi-me entre parágrafos

  1. eu já perdi a hora de voltar do almoço, mas o ponto do ônibus nunca… tenho um sexto sentido para a estação, eu acho…decorei as curvas do ônibus de tal maneira que sempre olho pela janela nas mesmas estações (a saber, a que dá pra casa da minha mãe, o terminal e o meu ponto)… coisa séria hein?

    1. Seríssima. Meu sexto sentido só funciona quando estou dormindo, sempre acordo próximo de descer. Quando leio o transe é mais profundo, esqueço que estou em movimento. A única dúvida é se existe remédio, será?

  2. e eu também tenho esse vício de ler em meio ao trânsito (no meu caso, o de vitorinha).. ainda não perdi o ponto de descer.. mas o desejo de descer em qualquer ponto literário é grande… somos esquizofrênicos literários (e quer saber?! sou esquizofrênica cinematográfica também… e eu não ligo)…

      1. Lembre de Borges, se “todos os caminhos levam à morte. Perca-se”, amigo, perca-se eternamente! – só cuidado pra não cair no Capão Redondo, brincadeira, brincadeira…rs

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