O Casamento Literário

Biblio
“Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim.” – Leite Derramado, Chico Buarque.

Quando pedi minha futura esposa em casamento, não usei de promessas tão grandiosas como o narrador da história de Chico Buarque. Nem ao menos usufrui dos contos de fadas para prometer felicidades eternas e uma vida de princesa ou fiz uso dos poemas de Neruda para emplacar um sonho de um futuro romantizado. Suei frio no dia do pedido, e quando eu fico nervoso costumo usar do lado cômico para disfarçar quaisquer comentários. Poderia então pegar emprestado um conto de Luis Fernando Veríssimo e dizer que seguiríamos o conselho do escritor mantendo uma distância segura e, assim, garantir a liberdade de ambos para prolongar o tempo de matrimônio, mas não o fiz. Usei mesmo as palavras do velho mestre Rubem Alves, quando contou a história de um passarinho engaiolado:

“Nunca fizemos promessas durante a nossa relação, e agora não seria diferente. Afinal, como disse certa vez Rubem Alves, promessas foram feitas para engaiolar o futuro. É como o pássaro, cujo voo é lindo, e de tão lindo você decide engaiolá-lo para ter sempre perto de ti. Mas as promessas não amarram o futuro, as confissões de amor, essas sim, servem para celebrar o presente. Então, essa aliança é uma confissão de amor, confissão do nosso amor”.

Em seguida ao pedido partimos para os preparativos. Como local escolhemos uma biblioteca, para ter todos os escritores, livros e traças como testemunhas. O celebrante da união seria o escritor Rubem Alves, que já fora pastor e não teria dificuldades para pronunciar as palavras derradeiras para o nosso futuro. A cerimônia começaria pontualmente à meia-noite – para evitar a quebra de feitiços repentinos. Em seguida serviríamos canapés acompanhados de vinho do porto e cantores de cordel para abrir o apetite.

BridegroomSó entrariam aqueles que receberam garrafas com mensagens embebidas em café. Capitão Haddock e seu amigo Tintim foram encarregados de entregar em mãos tais papéis em garrafas em troca de vinho e whisky para o casamento. Além das bebidas fermentadas, também era pedido um presente útil para a futura vida conjugal dos noivos, acompanhado de mensagens inspiradas em grandes mestres da literatura.

No jantar seria servido um banquete real, com um novilho assado na brasa proveniente da queima de tablets pela velha Inquisição – que dizia ser a tecnologia, essa sim, obra do demônio. Seguida a refeição, a noiva jogaria o célebre livro de Machado de Assis na esperança de que outras Capitus encontrassem seus Bentinhos e para os homens, ainda solteiros, foi jogado Lolita, para que um jovem amor rejuvenescesse corações envelhecidos.

A valsa foi dançada em cima da mesa enquanto trovadores cantavam cantigas de amor. Os demais convidados aproveitaram o clima romântico para convidar as damas para acompanhar os noivos, e antes que o clima amoroso terminasse, os recém-casados fugiram sorrateiramente para curtir sua primeira noite de amor.

Em seguida ao clima romântico, instalou-se a balburdia. Poetas duelistas, trajados de Dom Quixote, subiram nas mesas e digladiaram versos ao vento como ataques de espadas certeiros. Falsos casais enveredaram por entre livros em busca do paraíso de Luisa e Basílio, mulheres jogaram seu charme inspiradas em Madame Bovary e os maridos traídos juraram de morte os lobos que desafiaram coronéis.

Na saída, já ao amanhecer, cada convidado pegou um livro das estantes da biblioteca como lembrança do casamento literário.

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