Quase histórias de amor

Pedro nunca acreditou em um amor de verdade. Enquanto todos procuravam sua alma gêmea, a metade da laranja, a tampa da panela, ele vivia o momento presente com as mulheres que ele conhecia. Suas “quase histórias de amor”, como ele costumava as chamar, podiam começar com um simples olhar e terminar com uma cama vazia. Comemorações de datas festivas estavam fora de questão, a palavra namoro era proibida e apelidos como “amor” ou expressões como “eu te amo” serviam como alerta para começar uma nova “quase história de amor”.

Em mais uma de suas histórias Pedro conheceu Carla. Se fosse mais uma das aventuras do nosso jovem protagonista ele teria inventado um jeito peculiar e criativo de chegar até ela, teria começado uma conversa sobre algo que ela observava e assim capturar a atenção de seu objeto de desejo. E em meio a interesses mútuos pedir de forma atrevida o telefone da jovem e ela não negaria.

Porém Pedro não foi até Carla, ele não inventou nenhum assunto. Não precisou ser criativo para chamar a atenção da moça, nem mesmo tinha reparado na presença dela. Nosso jovem estava tranquilamente tomando seu café da manhã em uma padaria qualquer de São Paulo e lendo seu jornal, quando uma jovem pediu licença para sentar ao seu lado, a padaria estava cheia e aquele era o único lugar disponível. Ele lia o caderno de economia e deixara reservado o caderno de esportes para ler as notícias de sua equipe.

Carla pegou o caderno de esportes.

– Eu estou lendo.

– Desculpe, mas creio que como todo homem você não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo, então creio que seja difícil ler o caderno de economia e esportes juntos.

– Mesmo assim eu o reservei e pretendo lê-lo.

– Se pretende, não se incomodará se eu ler primeiro.

Pedro exercita sua paciência de bom moço e apenas torce o nariz concordando com a jovem atrevida. Ela termina o café da manhã e se levanta com jornal na mão.

– Desculpe, mas eu te disse que vou lê-lo.

– Mas eu não terminei de lê-lo e vou para casa terminar.

Ele respira fundo.

– Eu acho que você não entendeu, eu peguei esse jornal para lê-lo.

– Sério? Achei que você pretendesse fazer um barquinho com ele.

Ela sorri, Pedro não.

– Desculpe, mas…

Carla pega uma caneta e escreve um numero de telefone na parte de economia do jornal.

– Escuta, esse jornal pertence a padaria e você não pode simplesmente escrever nele, outros clientes vão lê-lo durante o dia.

– Se quer realmente ler a parte de esportes, me ligue!

– Você acha que eu ligarei para uma mulher inconveniente como você?

– Não! Mas ligará para ler a parte de esportes.

Ele sorri ironicamente.

– Escuta…

– Carla, me chamo Carla!

– Carla.

– Isso, você aprende rápido nomes!

– Escuta Carla, sinceramente se eu quiser ler o caderno de esportes eu vou a uma banca e compro. Afinal, provavelmente esse que esta em suas mãos acabará servindo de base para as necessidades de seu cachorro.

Ela engole seco.

– Escute aqui…

– Pedro, me chamo Pedro.

– Escute aqui, Pedro!

– Sim!

Alguns segundos de silêncio e olhares fixos um no outro.

– Ligue-me, e eu te mostro que uma garota pode muito bem saber de futebol ao invés de usar um jornal apenas para não sujar sua casa.

Carla sai irritada da padaria com o jornal na mão e pega seu cachorrinho preso na porta da padaria. O garçom vai até Pedro.

– Deseja mais alguma coisa?

– Não… Pode fechar a conta.

– Você ainda vai usar o jornal?

– Não.

– Nem mesmo para ligar para a moça que roubou sua atenção e os seus pensamentos neste exato momento?
Silêncio.

– Vou trazer a conta.

Ele pensa nas palavras do velho garçom que o servira nos últimos 3 anos, todos os dias naquela padaria. Luis ouvira muitas de suas histórias com diferentes mulheres, e conhecia a vida libertina de Pedro.

– Aqui está a conta.

– Fique com o troco.

– Não vai mesmo levar o jornal?

– Não! Pode ficar com o telefone da Carla

– Desculpe me intrometer, mas se eu fosse o senhor eu o levaria.

– Luis… Você me conhece e sinceramente ela não faz meu tipo.

– Unhas pintadas e bem feitas, baixinha, magrinha e linda… Sinceramente ela é seu número!

– Pode até ser, mas não chamou minha atenção.

– Desculpe a insistência e a sinceridade, mas você esta com medo.

Ele sorri.

– Medo? Medo de uma mulher? Luis, quantas histórias com mulheres eu te contei ao longo desses 3 anos que me conheces?

– Muitas, nem mesmo é possível contá-las.

– Então como posso ter medo de uma mulher?

– Simples! Desta vez você não está dando as cartas, não foi você que chegou até ela e a mirou como seu próximo alvo. Não foi você que inventou um assunto, nem um jeito criativo de chegar até ela.

– Mas…

– Além disso, nunca foste provocado de uma forma que não soubesse como responder, sempre foi homem de resposta pronta, e eu percebi as inúmeras vezes que não sabia como responder.

– O que está querendo dizer com tudo isso Luis?

– E ainda esse olhar depois que ela saiu.

– O que tem meu olhar.

– Olhar distante, pensativo.

– Está insinuando que estou apaixonado por ela por causa de um olhar pensativo?

– Por que não pega o jornal e descobre.

– Luis, não me aborreça.

– Quando nos sentimos perdidos é quando realmente nos encontramos, ou no seu caso, a encontramos.

Pedro sai da padaria sem o jornal. Pára na porta e olha para trás. Retorna e pega o jornal enquanto sorri para Luis antes de sair da Padaria. No dia seguinte Pedro não apareceu na padaria, nem no dia seguinte, nem no seguinte, nem no seguinte…

Meses depois Luis recebeu uma carta de Pedro que dizia: Obrigado caro amigo, nunca me senti tão perdido em toda minha vida. Carla manda lembranças.

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