Quase histórias de amor

Pedro nunca acreditou em um amor de verdade. Enquanto todos procuravam sua alma gêmea, a metade da laranja, a tampa da panela, ele vivia o momento presente com as mulheres que ele conhecia. Suas “quase histórias de amor”, como ele costumava as chamar, podiam começar com um simples olhar e terminar com uma cama vazia. Comemorações de datas festivas estavam fora de questão, a palavra namoro era proibida e apelidos como “amor” ou expressões como “eu te amo” serviam como alerta para começar uma nova “quase história de amor”.

Em mais uma de suas histórias Pedro conheceu Carla. Se fosse mais uma das aventuras do nosso jovem protagonista ele teria inventado um jeito peculiar e criativo de chegar até ela, teria começado uma conversa sobre algo que ela observava e assim capturar a atenção de seu objeto de desejo. E em meio a interesses mútuos pedir de forma atrevida o telefone da jovem e ela não negaria. Continue lendo

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Perguntaram-me se acredito em Deus, de Rubem Alves

Uma senhora perguntou certa vez a Rubem Alves: “O senhor acredita em Deus?”

E ele respondeu: “Acreditar em qual Deus? Há tantos… Homens ferozes e vingativos têm um Deus feroz e vingativo que mantém, para sua própria alegria, uma câmara de torturas chamada Inferno para vingar-se dos seus desafetos. Há o Deus jardineiro que criou um Paraíso e mora nas árvores e nas correntes cristalinas. Há o Deus com alma de banqueiro que contabiliza débitos e créditos… Há o Deus da Cecília Meireles que se confunde com o mar… Há o Deus erótico que inspira poemas de amor carnal… Há o Deus que se vende por promessas e faz milagres… E há também o Deus criança de Alberto Caeiro e Mário Quintana. Qual deles?”

A resposta do mestre, educador e filósofo Rubem Alves pode soar com certo ar de ateísmo. Mas a pergunta da senhora sobre a crença do teólogo inspirou-o a escrever o livro “Perguntaram-me se acredito em Deus”, que mostra uma relação íntima do professor com o Criador.

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24 Letras por segundo (Organizado por Rodrigo Rosp)

A sétima arte costuma utilizar em muitos filmes a inspiração proveniente da literatura, ou como é mais chamada de adaptação para o cinema. Muitos livros ganham suas versões cinematográficas e geram discussões calorosas sobre a fidelidade do filme à obra literária, o elenco escolhido, a visão do diretor e outros aspectos que recaem sobre a mesma pergunta:

O filme superou a obra literária?

Agora imaginemos o contrario, a sétima arte adaptada para a literatura. Pois esta é a ideia do livro 24 letras por segundo, lançado pela Não Editora e organizado por Rodrigo Rosp. Dezessete escritores escolhem seus diretores preferidos e escrevem um conto baseado em um filme ou na obra cinematográfica do diretor. Continue lendo

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Compaixão?

Disseram-me que eu deveria ter compaixão. Perguntei com quem, e me disseram com o próximo. Quem? Só pode ser o primeiro que eu encontrar. O mendigo na rua, o garoto pedindo dinheiro para o pai se embebedar, a puta que não encontra cliente, o falso empresário que alicia crianças, o padre pedófilo, o médico que estupra as pacientes, o anestesista descuidado, a mãe alcoolotra, o pai mulherengo, o deputado com a cueca cheia de dinheiro, a pedinte com carro último ano, a filha que abandona o pai em um asilo chique ou a esposa que quer trair o marido comigo? Ouço que devo ter compaixão com todas essas pessoas. Todas? Mas são um bando de FDP. Então lá vem ele com discurso poético: A compaixão diferencia-se de outras formas de comportamento prestativo humano no sentido de que seu foco primário é o alívio da dor e sofrimento alheios. Que tipo de alivio de sofrimento pode ter alguém que se embebeda, sequestra crianças, estupra, é negligente, infiel, ladrão ou imprudente? E então ele me diz que todas essas pessoas sofrem e buscam refúgio em coisas supérfluas. Refúgio? Coisas Supérfluas? E ainda tive que ouvir um discurso todo melancólico sobre as dores humanas, um porre. Sai de lá convicto que perdera meu tempo ouvindo aquele velho sem nome, até que cheguei ao local da minha casa. Nada sobrara. Os bombeiros apagavam os últimos focos de incêndio. Cinzas e entulho ocupavam o lugar que um dia foi chamado de lar. Os paramédicos me disseram que eu perdera minha mulher e 3 filhos, carbonizados. Meus pais já tinham morrido, e o único parente próximo era a bebada da minha sogra que eu não falava há 20 anos. Sai desolado, andei a noite inteira sem rumo. Na manhã do dia seguinte retornei a casa para ver se encontrava lembranças do que sobrara. Encontrei a sogra alcoolotra, o mendigo e seus três filhos que pediam dinheiro ali perto, o vizinho mulherengo, meu chefe e três prostitutas que ele pagara na noite anterior, a gostosa que vivia me seduzindo e o padre acusado de pedofilia. Todos estavam limpando o amontoado de cinza da minha casa e separando cada lembrança que sobrevivera ao incêndio. Fotos, presentes, detalhes da dor da minha perda escondidas nas cinzas. Cada um deles ao me ver partiu ao meu encontro e sem dizer uma só palavra me abraçaram e voltaram ao trabalho. Então uma mão tocou no meu ombro. O velho sem nome ficou ao meu lado, não disse uma palavra. Olhou-me, abraçou-me e sorriu.

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Poema de Emily Dickinson

“Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal.“

(Emily Dickinson, 1830-1886)

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Pequeno Irmão, de Cory Doctorow

“Governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo alterá-la ou aboli-la e instituir um novo governo, baseando-se em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade”.

Esse trecho da declaração da independência dos EUA é citado algumas vezes por Marcus Yallow, protagonista do livro “Pequeno irmão”, escrito por Cory Doctorow e publicado pela Editora Record.

Os motivos que inspiraram a declaração do garoto de apenas 17 anos eram sempre os mesmos, confrontar aqueles que defendem a perda da privacidade e da liberdade para justificar um aparente estado de segurança. Este fato pode parecer absurdo, porém ocorre todos os dias ao nosso redor sem muito alarde, com ações simples que vamos nos acostumando, nos adaptando e encarando como parte de nossa própria realidade.

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Tintim no país dos Sovietes, de Hergé

Quem nunca ouviu falar do repórter Tintim e seu inseparável cão Milu? Particularmente o personagem esteve presente em parte da minha vida. Cresci assistindo as aventuras do atrapalhado repórter, e durante uma época da minha vida recebi o carinhoso apelido do protagonista devido a um generoso topete que eu usava, somado ao meu estado deliberadamente atrapalhado.

Para minha surpresa descobri que a Companhia das Letras tem toda a coleção dos quadrinhos do Belga Hergé no seu catálogo, e obviamente eu não hesitei em começar minha coleção pelo primeiro volume publicado originalmente em forma de “folhetim” no suplemento infanto-juvenil “Le Petit Vingtième” em 1929, e que ganhou o nome de As aventuras de Tintim no país dos Sovietes.

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um Balão por um Bacamarte (Bob Gill e Alastair Reid)

Recentemente eu falei em minha coluna sobre troca de livros e todo o universo que o escambo pode proporcionar. Histórias trocadas, autores que mudam de mão, páginas que se multiplicam e se desfazem com o vento. Uma diversão de obras que passam de mão em mão para descobrir novos olhares.

E é exatamente a brincadeira de escambo que propõe o livro “um Balão por um Bacamarte” do designer e ilustrador Bob Gill e do poeta e tradutor Alastair Reid, publicado pela Cosac Naify.

A troca proposta não é exclusivamente de livros, mas de qualquer tipo de material, peça ou posse. Sempre com a proposta de uma diversão curiosa, sábia e que pode ser uma alternativa simples ao acúmulo. Tudo começa com algo para a troca.

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