Oração: “Ontem, hoje e sempre”

Todas as vezes que ouvi que teu caráter é imutável – “ontem, hoje e sempre” – eu tentava, erroneamente, traçar-te através do meu raso conhecimento de amor. Então traçava o perfil de um bom velhinho, amoroso, que pegava crianças no colo, distribuía doces em formas de palavras e amor em pílulas. Qualquer palavra ou ação mais dura era por mim ignorada. Desenhava-te aos meus olhos, para puro agrado e não como de fato és. Por isso que a expressão “ontem, hoje e sempre” me incomodava, e ao invés de procurar conhecer-te, eu queria te moldar a minha visão rasa de amor. Afinal, como explicar o amor quando pediste Isaque a Abraão? Como entender o amor que destrói Sodoma e Gomorra, inunda o mundo com água e salva poucos, quando destrói os egípcios que perseguiam seu povo? Como viver o amor daquele que permite que seu povo vague 40 anos erroneamente pelo deserto? E não permite que Moisés entre na terra prometida? Como viver o amor que exige a renuncia de nós mesmos e a entrega de tudo que temos? A poetiza estava certa quando disse que “não vemos as coisas como são, mas como nós somos”. E como temos uma visão superficial do que é amor, ao invés de buscar conhecê-lo através de quem é o Amor de fato, vivemos tentando desenhar-te e moldar-te aos nossos interesses para que seja mais fácil te explicar aos outros e principalmente a nós mesmos. Perdoa-me por te reduzir a minha visão rasa e superficial, por te moldar aos meus próprios interesses e esperar a tua entrega ao invés da minha. Não quero mais te desenhar aos meus olhos, quero agora te conhecer. Não quero mais praticar o amor superficial que conheço, quero que me ensines a amar como de fato é o amor. Quero, de fato, estabelecer um relacionamento contigo e renunciar a tudo que tenho e sou.

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O que você venera?

Porque aqui está algo que é estranho mas real: nas trincheiras diárias da vida adulta, não existe algo como o ateísmo. Não existe “não venerar”. Todo mundo venera. A única escolha que temos é o que venerar. E a razão convincente para talvez escolher venerar algum tipo de deus ou coisa espiritual – seja JC, Alá, ou a Deusa Mãe dos Wicca, ou as Quatro Nobres Verdades, ou algum conjunto de princípios éticos invioláveis – é que praticamente qualquer outra coisa que você venerar vai te comer vivo.

Se você venera dinheiro e coisas, se é aí que você encontra significado verdadeiro na vida, então você nunca terá o suficiente. É a verdade. Venere o seu corpo e beleza e atração sexual, e você sempre vai se sentir feio(…)

Venere o poder, e você vai acabar se sentindo fraco e medroso, e você vai precisar de ainda mais poder sobre os outros para entorpecer o seu próprio medo. Venere seu intelecto, ser visto como esperto, e você vai acabar se sentindo estúpido, uma fraude, sempre à beira de ser descoberto. Mas a coisa insidiosa sobre essas formas de veneração não é que elas são más ou perversas – é que elas são inconscientes. Elas são a configuração padrão. São o tipo de veneração em que você gradualmente se acomoda, dia após dia, ficando mais e mais seletivo sobre o que você vê e como você mede valor sem jamais estar totalmente ciente do que está fazendo.

Trecho retirado do texto “Isto é água” de David Foster Wallace (DFW) e traduzido por Luis Calil em “O discreto blog da Burguesia”

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Sobram-me exclamações

Por que sigo escrevendo se me faltam interrogações? Misturo sentimentos desconexos. Tropeço em virgulas demais, quando só queria encontrar o fluir de um texto bem escrito. Ando por parágrafos que mais parecem um labirinto cheio de aspas, exclamações, hifens e pontos finais. Só que me faltam interrogações. Não que eu tenha deixado de questionar, mas as confusões e percalços cotidianos parecem mais solúveis. A vida parece mais digna de ação do que de meditação. Talvez seja por isso que me faltam interrogações e sobram-me exclamações!

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Um sopro de esperança

REDGLOBO

- Capitão! O vento cessou, estamos parados.

- Não apenas nós.

- O que quer dizer?

- “Quando o vento cessar e o tempo parar, saberás que aqui estou”.

Após falar tais palavras há muito não pronunciadas, o Capitão percebe que o marujo está paralisado, como uma horrível escultura em um navio imóvel no oceano.

- Já faz algum tempo, meu Capitão.

- Um longo tempo.

- Gostei do nome que ganhaste em todo Globo, El Negro. Sabias que és quase uma lenda na boca do povo?

- Aposto que serei mais falado se matar uma certa feiticeira de asas rubras.

- Se o fizeres, ao invés de perder o olho, perderá para sempre seu coração.

- O que queres?

- Sei que andas enviando cartas engarrafadas por todo o oceano, algumas carregam maldições, angústias e dores.

- Elas são minha única fonte de esperança.

- Resolvi ajudar-te no dia de hoje.

- Como assim?

- Levarei uma de suas garrafas ao teu amor.

- Em troca do que?

- Não sou tão má assim.

- Nem tão benevolente.

- Essa época do ano me deixa de coração mole, não resisto a uma história de amor.

- Vou escrever uma carta então.

- Não há tempo, coloque o que quiser agora nesta garrafa pois preciso partir.

- Isso é injusto.

- A vida é injusta. E ao invés de lamuriar, pense na dor do seu amor ao receber uma garrafa vazia.

El Negro tomou a garrafa da mão da feiticeira, depositou um punhado de areia vermelha dentro da garrafa e sussurrou um feitiço antes de fechá-la e entregá-la de volta.

- Areia? Pelo visto o romantismo não é seu forte.

A feiticeira desapareceu levando a garrafa e trazendo de volta o tempo e o vento.

O presente fora deixado ao lado da cabeceira da amada de El Negro, que ao acordar deparou-se com a estranha garrafa. Ao pegá-la, uma pequena inscrição deixada embaixo do presente chamou atenção: “Agite antes de abrir”.

Ela agitou a garrafa e a rolha explodiu junto com toda a areia interior, que colidiu com a parede atrás da cama da jovem formando o desenho do Mapa do Mundo. No meio do oceano Atlântico um pequeno ponto, com um coração em movimento com destino a Africa.

Embaixo do mapa uma nova inscrição: “Coloque o ouvido junto a boca da garrafa e ouça”. A jovem, mesmo um tanto assustada, procedeu conforme o escrito e ouviu: “O coração no mapa indica minha posição no Globo. Sigo a tua procura, espere-me”.

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O Casamento Literário

Biblio
“Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Vamos nos casar na capela que foi consagrada pelo cardeal arcebispo do Rio de Janeiro em mil oitocentos e lá vai fumaça. Na fazenda você tratará de mim e de mais ninguém, de maneira que ficarei completamente bom. E plantaremos árvores, e escreveremos livros, e se Deus quiser ainda criaremos filhos nas terras de meu avô. Mas se você não gostar da raiz da serra por causa das pererecas e dos insetos, ou da lonjura ou de outra coisa, poderíamos morar em Botafogo, no casarão construído por meu pai. Ali há quartos enormes, banheiros de mármore com bidês, vários salões com espelhos venezianos, estátuas, pé-direito monumental e telhas de ardósia importadas da França. Há palmeiras, abacateiros e amendoeiras no jardim.” – Leite Derramado, Chico Buarque. Continuar lendo

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Carta Engarrafada

cartaengarrafada

“Caro leitor de papeis em garrafas,

Dia desses encontrei uma fadinha nada modesta, pedi um feitiço e ela me cobrou os olhos da cara. Tentei negociar meus braços, pernas, o nariz, o queixo, minha mãe mas ela estava irredutível. Dizia que para o tipo de feitiço que eu queria o único pagamento aceitável era meu par de olhos, afinal os mesmos ficariam inúteis depois do feitiço.

Convencido, porém desconfiado, paguei adiantado com um olho e o outro viria depois do resultado prático. Ela aceitou e logo tratou de pronunciar as palavras mágicas e bater a tal varinha na minha cabeça. Então ela sumiu, e nada aconteceu. Pelo menos até virar a primeira esquina e dar de cara com ela. Cabelos loiros, pequenina, sorriso estonteante e falar empolgante. Três encontros e eu estava completamente apaixonado.

Então a fadinha voltou para exigir a outra parte do pagamento, o olho restante. Eu desconversei, tentei negociar, mas a tal fadinha era teimosa e não aceitava nada em pagamento, somente o tal olho. Como eu iria enxergar? Como iria ver meu amor? Como iria acertar o buraco? Nada a comovia, ficava apenas me olhando com aquela cara angelical e com a mãozinha esticada para eu colocar o tal olho.

Virei de costas, peguei uma bolinha de gude no meu bolso e coloquei na mão da fadinha, ao mesmo tempo que saia em disparada. Meu plano era simples. Pego meu amor, entramos em um navio e fugimos em alto mar. Tinha visto no National Geographic que as fadas não conseguem voar sobre a água, isso devido ao reflexo delas na água causarem um efeito que paralisava suas asas. O plano era perfeito, exceto por um detalhe. A fadinha tinha asas e chegou na casa do meu amor antes de mim, sequestrou-a e enviou-a para o outro lado do oceano.

O ávido leitor deve ter pensado o mesmo que eu naquele momento. Pego um barco e navego até o outro lado do oceano e recupero meu amor, certo? Errado. Primeiro por que não conhecia nada de barcos, segundo por que a falta de um olho me impediu de me alistar na marinha e terceiro por que não sei nadar. A opção foi roubar um barco, e após 3 tentativas frustradas consegui roubar um barco a vela, a melhor opção segundo um velho vigia de barcos para a minha aventura além mar.

O complexo agora era fazer com que o vento soprasse na direção certa, batalha que travo até os dias de hoje. O navio sequestrado tinha uma inscrição na lateral, “o amor é cego”. Ainda pensei que isso tivesse algum significado, mas procurei me focar na batalha terrível das próximas semanas em convencer o vento a soprar na direção correta.

Se tiver alguma dica, manda-a através do vento.

Abraços engarrafados.

El Negro”

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Carta de um assassino

sangrando

Carta encontrada no leito vazio de um hospital.

Se você tiver a oportunidade de matar alguém, não o faça.

Não pelo motivo óbvio de que não é certo fazê-lo, mas pelas consequências que este ato causará na pessoa que o comete. A morte encerra a vida de quem é assassinado, porém os fantasmas perseguem eternamente o autor de tal obra.

Não escolhi ser um assassino, nasci após um assassinato e motivado pela vingança me especializei nesta trágica arte. Aprendi cada detalhe, estudei cada passo até estar pronto. Então os persegui um a um e quando o último estava no chão com o sangue curando minha sede, senti o gosto amargo que mistura satisfação e vazio.

Os momentos que se sucederam foram preenchidos com um silêncio assustador, apenas interrompido pelo toque do telefone. Foi assim que entrei neste mundo, um convite para serviços a pedido de um informante que dizia ter sido salvo por mim. Não procuro justificar meus atos, mas foi a falta de rumo após o vazio da vingança que me fez escolher esse caminho tortuoso.

Matar alguém não é tão simples como relacionam as estatísticas policiais e os jogos de computador, apesar da fragilidade do corpo humano. A morte é um dos momentos mais trágicos para quem a observa. Pavor, medo, angústia, dor, sofrimento, todas as emoções expostas em poucos segundos através da expressão e gritos emitidos. Mesmo quando tudo é instantâneo, a face da morte é perturbadora.

Desde então muitas foram as encomendas. Porém não acrescento números a minha lista, somam-se fantasmas ao meu destino. Troco o dia pela noite pelo fato de poder me esconder dos olhares suspeitos durante o dia, dos rostos tão claros no meio da multidão e também para me proteger. Tenho sempre a impressão que estou sendo vigiado. Perdi a conta dos dias que meus olhos não se fecham com medo dos fantasmas que aparecem em meus sonhos e da fúria da vingança daqueles que perderam alguém.

Não sou vítima, nem vim aqui te convencer do contrário. Quero apenas te dar um recado.

Se você tiver a oportunidade de matar alguém, não o faça.

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